“À mim, sempre me impressionou aquelas meninas que não queriam me impressionar. Gosto daquelas que dançam com olhos fechados e cabelo bagunçado, que nem notam que todos estão a olhando. Gosto daquelas que jogam as mãos ao vento e se apoiam em teus tênis sujos. Me encantam as meninas que dançam e não percebem que a cada movimento, meu coração se perde aqui dentro, como um turista que entra num bloco de axé pela primeira vez.
Gosto das meninas com poucas maquiagens. Com muitas tatuagens. Que falem de Deus, mas que xinguem também. Me encantam as meninas que bebem. Quem ousa se deixar levar pelo prazer momento, merece meu respeito e admiração. Gosto das meninas que não me ligam. Que me deixam noites em claro esperando por uma notícia. E quando eu me sinto pronto para esquecê-las, elas aparecem com um SMS simples causando um tsunami em minha calmaria momentânea.
À mim, sempre me interessou meninas sem esmaltes nos pés e com o cabelo colorido. Bochechas rosadas de suor. Braços marcados por meus apertos. Gosto das mulheres por cima e de quando elas me olham debaixo. Gosto de olhos diabólicos e infantis. Gosto de peitos grandes e de gordurinhas a mais no quadril. Gosto de bocas sem batom e de orelhas com brincos grandes.
Meninas têm que gostar do mar e não ter medo de altura. Pavor por insetos é divertido. Eleva o meu lado masculino fazendo-me pensar que sem eu ali aquela barata já teria a devorado toda. Exagero, eu sei. E eu gosto de exageros. Gosto de romances sem limites, que rompem qualquer barreira. Amor é perder o chão e ganhar o céu. Amor é uma calma profunda e um êxtase do tamanho do mundo. Amor é mergulhar de cabeça sem temer o que está subemerso. Amor é gargalhar sem receio de mostrar os dentes ou as rugas do tempo. Amor é sorrir com o coração, enxergar com o toque e beijar com a alma”, hr.
Quisera eu parecer poético, Rosa, mas agi como um criminoso, andando torto e me empenhando em correr calado somente para te entregar no prazo as atmosferas que prometi. O que significaria o céu que rasga o mundo sobre mim se não fosse a alegria latejante que me causa a projeção dos teus lábios em riso? Sou mesmo mais um exagerado, dotado de uma melancolia demasiadamente disfarçada que, de tão hábil nas brincadeiras de esconder-se, faz-me pensar que tu és cega por nunca ter desconfiado de coisa alguma e, de fato, é por isso que amaldiçoo a mim mesmo todas as vezes que penso em situações assim. Que seria eu sem os teus olhos? Que faria eu se não pudesse desfrutar do contentamento que eles refletem quando me jogo ou me ponho à tua frente? Por mais que agora a tua boca tente machucar os meus sentidos e sentimentos, soprando-me para longe, são os teus olhos que me aquecem o coração e atiram na minha face o amor que ainda tenta se libertar dentro de ti. Sei bem que fui eu o carrasco a aprisioná-lo e a querer asfixiá-lo aí no fundo, mas amargamente me arrependo dos buracos que cavei e que te causaram, de modo proposital ou não, perdas lastimáveis de equilíbrio. Acredite, foi numa das tuas quedas que também tropecei e, assim sendo, já não faz sentido negar a instabilidade que me atinge a consciência quando feridas com a minha aparência insistem em serem cravadas no sonho dos esforços teus.
Eu poderia ser um cavalheiro distinto e sábio na flexão do vocabulário que não tenho no bolso, mas, ao invés de libertar o que sinto e mostrar-te que anseio pela redenção, furtei a vida dela mesma para te fazer minha; para encontrar em ti os sons que anunciariam que o teu amor vem decidido a emergir de volta.
É certo que a vergonha e o desprezo que tenho sustentado por mim não ajudaram a insistir no egoísmo de te tornar propriedade minha, mas, veja bem, fui tomado por uma certeza que tapou os meus ouvidos e não me deixou compreender teus argumentos. Existe mesmo razão plausível que te leve a rejeitar-me como se tu não mais se importasses? Continuarei discursando e crendo que não, pois não existe algo tão verdadeiro e cru quando o que sinto por ti, por mais inválidas que sejam as minhas ações diante daquilo que tu consideras apropriado.
Antes que o fio dos meus pensamentos desapareça, preciso confessar outra vez que roubei, Rosa. Arrebatei tudo aquilo que pude e fugi levando um sorriso trôpego no rosto na esperança de que, num fim próximo, tu chegarias até mim reconhecendo os meus erros e concedendo o perdão que libertaria o amor que tu carregas, e ainda pulsa por mim, entre os lençóis negros que o encobrem. Tomei de quem não podia e forjei uma escritura que garantia que o mundo era meu. Fui egoísta, menti e omiti sobre aquilo que não me cabia mais, pois, há muito, já havia perdido. Mas eu fiz, Rosa. Eu fiz do mundo uma caixa grande e bonita cheia de azuis, flores, sabores e altas colinas que denotassem o arrependimento que me atingiu por inteiro. Eu vendi até o que não tinha para te ver chegar novamente e não precisei sentir o conforto daquilo que insiste em nos dar a garantia do êxito. O mundo ainda pode ser teu, por isso releve os nossos buracos enquanto engulo o preço da minha antiga intransigência.
(Inconcussa)